Inoculação in Ovo

A tecnologia de alimentação in ovo, ou “nutrição in ovo”, ou mesmo “inoculação in ovo”, deriva da tradução da terminologia em inglês “in egg feeding”, e é considerada uma prática recente na ciência avícola e na indústria avícola. Esta tecnologia de suplementação de nutrientes, com patente registrada nos EUA (registro n. 6.592.878) em nome de Uni e Ferket (2003), consiste na administração de nutrientes exógenos através do líquido amniótico ou da cavidade alantoide para aves ou perus com idade de incubação aproximada entre 17 e 23 dias, respectivamente (FOYE et al., 2006), com a finalidade de aumentar o estado nutricional ou disponibilizar nutrientes ao embrião, objetivando maior eficiência digestiva; redução da mortalidade e da morbidez pós-eclosão, além de melhor desenvolvimento do sistema imunológico (UNI & FERKET, 2004; LEITÃO et al., 2005).


Figura 1. Profa. Dra. Zehava Uni (Universidade Hebráica de Jerusalém, Israel) e Prof. Dr. Peter R. Ferket (Universidade Estadual da Carolina do Norte, EUA). Os maiores especialistas em Alimentação In Ovo do mundo.


Todavia, estas respostas positivas não só dependem da composição da solução, mas também do volume e osmolaridade da solução injetada no âmnio (FERKET et al, 2005). Em altas concentrações, a solução nutritiva pode causar um desequilíbrio osmótico resultando no óbito do embrião (DAMASCENO et al., 2017) em fase intermediária (pintos e/ou embriões mortos entre 16 e 18 dias de incubação), tardia (pintos e/ou embriões mortos entre 19 e 21 dias de incubação, após a inoculação, sem bicagem da casca do ovo) ou pós-bicagem (pintos e/ou embriões mortos entre 19 e 21 dias de incubação, após a inoculação, com bicagem da casca do ovo).

 
Figura 2. Análise de mortalidade embrionária (embriodiagnóstico). Em sequência: mortalidade intermediária, mortalidade tardia e mortalidade pós-bicagem.


A disponibilização destas substâncias como suplementos nutricionais na fase de pré-incubação visa melhorar o desenvolvimento inicial do trato digestivo, a fim de impulsionar as enzimas digestivas e um maior crescimento das vilosidades intestinais (GEYRA et al., 2001). Além disso, o acesso rápido do pintainho aos alimentos pode auxiliar na melhora do seu desempenho, do desenvolvimento intestinal e, consequentemente, do crescimento de outros órgãos do corpo (LEITÃO et al., 2005).

  
Figura 3. Representação gráfica do procedimento de inoculação de substâncias in ovo utilizando variações na metodologia de aplicação (OHTA & KIDD, 2001).


Durante o período de incubação e nas primeiras horas após a eclosão, as aves possuem limitadas funções digestivas, o que, consequentemente, reduz a disponibilidade de nutrientes para o seu metabolismo de crescimento, e restringe sua capacidade digestiva, que começa a se desenvolver quando o líquido amniótico é consumido por via oral por cerca de 17 dias de incubação (UNI et al., 2005).

Do 15º ao 19º dia de incubação o líquido amniótico é totalmente consumido oralmente e, consequentemente, as substâncias presentes também são ingeridas, criando a possibilidade de ingestão de nutrientes exógenos antes do nascimento (UNI, 2003; CAMPOS et al., 2010). Além disso, tem-se demonstrado que o embrião possui enzimas digestivas (SKLAN et al., 2003) que tornam possível a nutrição na fase pré-eclosão. Assim, o embrião pode consumir naturalmente nutrientes pela via oral antes de nascer (FERKET & UNI, 2006).

Já comprovou-se que os embriões avícolas apresentam em suas reservas fisiológicas uma quantidade limitada de nutrientes disponíveis para seu desenvolvimento. E o fornecimento de nutrientes exógenos intra ovo durante o desenvolvimento embrionário pode funcionar como uma fonte extra de nutrientes para esse desenvolvimento, resultando em um maior peso ao nascimento, maior viabilidade, maior vigor, entre outros. Para tanto, é necessário definir quais nutrientes utilizar, o período e local da administração, a forma de fazer esta administração entre outros fatores.

De acordo com Kidd (2004), as pesquisas com alimentação in ovo precisam ser desenvolvidas com o objetivo de avaliar o seu impacto sobre o crescimento do pintainho, buscando sempre um aumento da viabilidade econômica. Para isso, é necessária a disponibilidade dessa tecnologia de forma prática para as empresas em uma base comercial. Atualmente, a alimentação in ovo já é uma realidade em centros de incubação de alguns países como Estados Unidos, Japão, França, Holanda e outros, sendo utilizada principalmente para a vacinação de embriões no ovo (JOCHEMSEN & JEURISSEN, 2002), e mais recentemente, para disponibilização de nutrientes exógenos in ovo.


Figura 4. Procedimentos para realização da inoculação de substâncias in ovo: perfuração da casca do ovo e procedimento de inoculação das soluções.


No manejo técnico, os pesquisadores afirmam que, dependendo de vários fatores como a fase de desenvolvimento do embrião e a composição da solução, pode ser determinado o volume ideal a ser aplicada em diferentes locais de ovo, em diferentes concentrações, em diferentes osmolaridades e outros parâmetros. No entanto, a falta de informação sobre os efeitos da inoculação de diversas substâncias sobre a fisiologia do embrião, continua impedindo o pleno desenvolvimento de tecnologias voltadas para a industrialização do processo de inoculação (GEYRA et al., 2001; JOCHEMSEN & JEURISSEN, 2002; LEITÃO et al., 2014).

Ainda que o ovo seja considerado completo em termos nutricionais, os percentuais de aminoácidos, carboidratos, vitaminas, minerais e lipídeos, são suficientes no terço inicial da incubação, estando aquém dos níveis desejáveis no terço final e durante a eclosão (GONÇALVES et al., 2013). Conforme Abed et al. (2011), o acesso imediato ao alimento logo após a eclosão, asseguram um ótimo desempenho de frangos de corte na idade de abate, visto que estas aves não possuem potencial compensatório para crescimento retardo devido a um longo período de privação nutricional durante o período neonatal. Contudo, o acesso a nutrientes poderá ocorrer já na fase embrionária, antecipando este período de privação.


Os nutrientes utilizados podem estar envolvidos com diferentes funções: fontes de energia (sacarose, dextrina, maltose e glicose), ativação do sistema imunológico (vitamina E, cobre e probióticos), metabolismo e anabolismo protéico (HMB e aminoácidos: metionina, lisina, treonina, arginina e leucina) e/ou agentes tróficos da mucosa intestinal (glutamina, zinco e ácido butírico) (GEYRA et al., 2001; UNI et al., 2005; CAMPOS et al., 2010; LEITÃO et al., 2014).

Referências:

1. ABED, F.; KARIMI, A.; SADEGHI, G.; SHIVAZAD, M.; DASHTI, S.; SADEGHI-SEFIDMAZGI, A. Do broiler chicks possess enough growth potential to compensate long-term feed and water depravation during the neonatal period?. South African Journal of Animal Science, v. 41, p. 33-39, 2011.
2. CAMPOS, A.M.A.; GOMES, P.C.; ROSTAGNO, H.S. Nutrição in ovo de frangos de corte. Revista Eletrônica Nutritime, v. 7, n. 4, p. 1304-1313, 2010.

3. DAMASCENO, J.L.; CRUZ, F.G.G.; MELO, R.D.; FEIJO, J.C.; RUFINO, J.P.F.; VALENTIM, F.M.; OLIVEIRA, J.P.C. Inoculação de proteína isolada de soja em ovos embrionados oriundos de matrizes semipesadas com diferentes idades. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v. 69, n. 5, p. 1259-1266, 2017.
4. FERKET, P, DE OLIVEIRA, J., GHANE, A., UNI, Z. Effect of in ovo feeding solution osmolality on hatching turkeys. Poultry Science, v. 84, n. 1, p. 118, 2005.
5. FERKET, P., UNI, Z. Early feeding – in ovo feeding enhances of early gut development and digestive capacity of poultry. In: 12th Conference European Poultry; Verona, Italy, 2006.
6. FOYE, O.T.; UNI, Z.; FERKET, P.R. Effect of in ovo feeding egg white protein, β-hydroxy-β-methylbutyrate, and carbohydrates on glycogen status and neonatal growth of turkeys. Poultry Science, v. 85, n. 7, p. 1185-1192, 2006.

7. GEYRA, A.; UNI, Z.; SKLAN, D. Enterocyte dynamics and mucosal development in the posthatch chick. Poultry Science, v. 80, n. 6, p. 776-782, 2001.
8. GONÇALVES, F.M.; SANTOS, V.L.; CONTREIRA, C.L.; FARINA, G.; KREUZ, B.S.; GENTILINI, F.P.; ANCIUTI, M.A.; RUTZ, F. Nutrição in ovo: estratégia para nutrição de precisão em sistemas de produção avícola. Archivos de Zootecnia, v. 62, 45-55, 2013.
9. JOCHEMSEN, P.; JEURISSEN, S.H.M. The location and uptake of in ovo injected soluble and particulate substances in the chicken. Poultry Science, v. 81, p. 1811-1817, 2002.
10. KIDD, M.T. Nutritional modulation of immune function in broilers. Poultry Science, v. 83, p. 650-657, 2004.
11. LEITÃO, R.A.; LEANDRO, N.S.M.; PEDROSO, A.A.; STRINGHINI, J.H.; OLIVEIRA NETO, G.R.; CAFÉ, M.B. Efeito da suplementação de glicose in ovo sobre o desempenho inicial de pintos de corte. Revista Brasileira de Ciência Avícola, v. 7, n. suppl., p. 69, 2005.
12. LEITÃO, R.A.; LEANDRO, N.S.M.; STRINGHINI, J.H.; CAFÉ, M.B.; MATOS, M.S.; ANDRADE, M.A. Inoculação de maltose e/ou sacarose em ovos leves embrionados. Ciência Animal Brasileira, v. 15, n. 1, p. 55-63, 2014.
13. OHTA, Y.; KIDD, M.T. Optimum site for in ovo amino acid injection in broiler breeder eggs. Poultry Science, v. 80, n. 10, p. 1425–142, 2001.
14. SKLAN, D.; GEYRA, A.; TAKO, E.; GAL-GERBER, O.; UNI, Z. Ontogeny of brush border carbohydrate digestion and uptake in the chick. British Journal of Nutrition, v. 89, n. 6, p. 747-753, 2003.
15. UNI, Z. Methods for early nutrition and their potential. In: European Symposium of Poultry Nutrition: World Poultry Science Association; Lillehammer, Norway, p. 254-260, 2003.
16. UNI, Z.; FERKET, P.R. Enhancement of development of oviparous species by in ovo feeding. US Regular Patent US 6,592,878 B2. 2003. North Carolina State Univ., Raleigh and Yissum Res. Dev. Co., Hebrew Univ. Jerusalem, Israel.
17. UNI, Z., FERKET, P.R. Methods for early nutrition and their potential. World’s Poultry Science Journal, v. 60, n. 11, p. 101-111, 2004.
18. UNI, Z.; FERKET, R.P.; TAKO, E.; KEDAR, O. In ovo feeding improves energy status of late-term chicken embryos. Poultry Science, v. 84, p. 764-770, 2005.